dia-a-dia, outras parecem respirar ações e falar outra língua, cheia de siglas e palavras
esquisitas.
Saber o significado de cada uma dessas não é a parte mais interessante.
A história por trás sim, é fascinante.
Essas pessoas não imaginam como a "bolsa", entre aspas, influencia o mundo em que vivemos.
E esse outro vive tentando prever o futuro e não entende como chegamos até aqui.
O mercado de ações surgiu na época em que os Europeus começaram a navegar e colonizar
o resto do mundo.
Vamos pegar a descoberta do Brasil, por exemplo: Pedro Álvares Cabral ficou com a fama, mas
ele não chegou aqui sozinho.
Eram treze navios, mais de mil homens e um estoque gigantesco de suprimentos.
Imagina como era caro organizar uma expedição dessas.
Sem contar que tudo podia literalmente afundar, ser roubado ou simplesmente se perder.
Nesse caso, depois de esbarrar com o Brasil, eles seguiram viagem pra Índia, e só depois
voltaram pra Portugal.
Dos 13 navios originais, seis foram perdidos, dois voltaram vazios e só cinco tinham coisas
de valor.
Pode parecer um desastre, mas na época isso foi considerado um sucesso.
Durante todo o século XVI as coisas funcionaram desse jeito.
Reis ou empresários super ricos bancavam tudo e, se dessem sorte, embolsavam o lucro.
Se não… o prejuízo às vezes era tão grande que significava falência.
Depois de décadas anos nesse cassino, Portugal e Espanha se deram bem.
Juntos, formaram a maior potência do mundo no final do século XVI, em grande parte por
causa do sucesso que tiveram nos mares.
Já os holandeses não se deram nada bem.
Eles não tinham grandes territórios, e pra completar se meteram em uma guerra com a Espanha.
Acabaram totalmente afastados do comércio.
E aí tiveram que pensar diferente.
Pra começar, aproveitaram a reputação de que pagavam dívidas em dia.
Eles também tinham um Judiciário razoavelmente independente, que defendia direitos de propriedade.
Não era perfeito, mas era melhor que o da Espanha e Portugal.
Depois, criaram essa empresa.
Só ela poderia comercializar iguarias na Holanda.
Até aí, nada de novo: o Reino Unido já feito a mesma coisa.
A grande sacada dos holandeses foi que ao invés de só ou Rei ou ricos bancarem a empresa,
eles abriram o capital dela pro mundo todo.
Qualquer pessoa,de qualquer país, podia dar um dinheiro pra empresa, e receber, em troca,
um papel dizendo que ela era dona de um pedacinho dela.
Se você tivesse muito dinheiro, podia comprar vários desses, também conhecidos como ações.
Multiplica isso por centenas de pessoas… e a empresa conseguiu dinheiro suficiente
pra financiar expedições saindo de Amsterdã.
Se desse certo, parte do o lucro era dividido entre todos os acionistas e o resto era usado
para preparar as próximas viagens.
Se desse errado, o prejuízo também era dividido e não ia levar ninguém a falência.
Como mais expedições davam certo do que errado, no fim das contas todo mundo ganhou
muito dinheiro.
Mas o importante que a gente entenda é a grande mudança que isso causou no comércio
e nas relações internacionais.
Pra ver a diferença, é só comparar com o exemplo aqui do Brasil.
Cabral chegou aqui em nome de Portugal.
Mas depois que os holandeses fizeram isso, os países foram deixando de ser os atores
no comércio internacional, e empresas assumiram esse lugar.
O nosso mundo é todo assim hoje.
O que é mais comum ver no seu dia-a-dia: essas bandeiras ou esses logotipos?
Pois é… hoje isso é tão natural pra gente que nem percebemos.
Mas foram os holandeses que criaram a primeira transnacional, o primeiro mercado de ações,
e junto com eles vieram vários conceitos usados até hoje.
Por exemplo, isso tudo que expliquei nada mais foi do que o que hoje chamamos de IPO.
Até hoje empresas fazem exatamente a mesma coisa quando entram na Bolsa.
A diferença é que temos computadores.
E tem mais.
Os holandeses montaram a companhia de forma que quem tivesse uma ação não tinha como
devolver e pegar o dinheiro de volta.
Se você quisesse se livrar da sua, tinha que vender pra outra pessoa.
Daí surgiu a bolsa de valores, que nada mais era do que um lugar onde você poderia achar
outras pessoas interessadas nos seus papéis.
O pulo do gato é que o preço era livre.
Mesmo se você tivesse pago 3.000 moedas pelas suas ações, nada impedia de anunciar por
4.000.
Se alguém estivesse disposto a pagar isso, ótimo.
A diferença era toda sua.
De novo, isso é exatamente o que o mundo inteiro faz até hoje.
Quando você vê as ações da Petrobras, por exemplo, caindo 5%, significa que os acionistas
estão vendendo elas 5% mais baratas do que um dia antes.
Quem dita o preço é a oferta e demanda de cada ação, com base no que as pessoas acham
que vai acontecer com cada empresa no futuro.
Logo que esse mercado de ações foi estruturado, há mais de 400 anos, essas siglas começaram
a surgir.
O primeiro short foi holandês, assim como os primeiros debêntures, processos e revoltas
de acionistas, e assim por diante.
Os acionistas da Companhia Holandesa das Índias Orientais também tinham uma proteção que
é muito usada até hoje.
Imagina que você tenha ações do Bradesco, por exemplo, e por qualquer motivo o banco
quebre.
O máximo que você pode perder, como acionista, é o que gastou nas suas ações.
Ninguém vai tentar tomar o seu carro ou a sua casa pra pagar as dívidas do banco.
Foram os holandeses que pensaram nisso.
Mas não fique com a impressão de que bastou criar esses mecanismos financeiros e os problemas
holandeses acabaram pra sempre.
A Holanda de fato virou o centro financeiro do mundo.
Mas mesmo sendo o país mais urbanizado, com a população mais bem paga e educada, a Holanda
perdeu o bonde da Revolução Industrial, mas isso é assunto pra outro vídeo.
O que importa pra nós hoje não é saber como europeus compravam chá, pimenta e outros
temperos há 400 anos, mas ver como as soluções para os problemas que eles tiveram não só
moldaram boa parte do mundo em que vivemos, como ainda são usadas até hoje.
Eu, pelo menos, acho isso fascinante.
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Até a próxima !